Estava eu em minha boçal vida cotidiana. Transitando entre a globo.com e o kibeloco, quando tudo aconteceu! Foi um encontro sublime! No momento exato em que vi aquele profile minha playlist tacava “Só Hoje” do Jota Quest. Apaixonei-me por um Orkut! Estarreci ante a simplicidade poética do momento.
Encontrei ali tudo! “hoje, preciso de você, com qualquer humor” a musica tocava, eu lia suas descrições e inclinações imaginando como nosso futuro seria ótimo. Cada palavra fazia aumentar minha paixão. E as fotos! Lindas! Um acervo farto. Fotos nítidas, de cores vivas, algumas de perspectivas ousadas, um teor artístico respeitável. Tinha seios volumosos, morena, pele branca, olhos castanhos, alta, cintura fina, um rosto fino e simétrico. Um mulherão!
Ouvi dizer certa vez que todo mundo namora a idéia que tem do parceiro. É o mesmo que idolatrar uma expectativa. A projeção que você faz do companheiro é a fonte do sentimento afetuoso.
Perfeito!
Liguei o repeat e fiquei mais meia hora analisando detalhe por detalhe. Vários amigos, muitos comentários e recados. Uma pessoa extrovertida, de bem com a vida, amigos interessantes, comentários alegres e depoimentos emocionados. Tínhamos várias coisas em comum, em geral, participávamos das mesmas comunidades. Analisando os recados, tinha alguns flertes aqui e ali, mas nenhum namorado, nem nada muito sério. Ainda bem.
Cursava veterinária. Até gostava de Metallica! Era perfeita.
Agradeço o abençoado inventor dessa rede de comunicações, o difusor da internet, o vendedor de câmeras digitais, os técnicos em informática que levam aos lares o sinal da conexão com o mundo. Cada um deles é responsável por eu ter encontrado o amor da minha vida. Uma paixão platônica arrebatadora. Era ela a tampa da minha panela, a metade da laranja. Não havia um só defeito em sua pessoa, digo, profile. Era confiante e direta. Inteligente e culta. Sua auto-descrição lembrava Mário Quintana.
Decido, no fim das contas, não procurá-la. Morava perto, poucas dezenas de quilômetros. Nada impossível para o amor. Todavia estaria eu preparado para ver tal formosura da espécie andando pela rua em seu cotidiano? Sem nenhum quê relevante, com aquela cara de nada a qual todos nós estamos fadados a ostentar? Qual seria minha decepção em encontrá-la vestida com roupas comuns, diferente das tão descoladas em seu Orkut? Como eu me sentiria vendo ela comendo um cachorro quente? Não, é demais para minha cabeça. Não posso me permitir fazer isso com minha amada. Lutarei. não profanaREI sua pureza. Creio que jamais outro ser conseguirá atender tão fielmente ao padrão ideal de beleza interior e exterior da raça humana. Contentar-me-ei em observá-la virtualmente, esperando ansiosamente o dia em que ela me adicionará no MSN e começaremos um lindo namoro virtual.