CRÔNICA SEM NOME
Muitas vezes saia à noite, para curtir a lua e alguns decotes. Os decotes nunca foram grande problema para mim. Certa noite nem a lua não pôde ver, ainda era cedo quando roliças pernas cruzaram meu caminho. Noite agitada!
Como de praxe, toda sexta me arrumo e saio, certa noite eventos aleatórios e quadris carnudos levaram-me estranhamente ao pub Brazil, na av. Santos Drumond. Encontrei alguns amigos, sentei-me com eles e fiquei observando ao longe aquele corpo que me atraíra até ali. Era meu alvo, como a cobra que se prepara para o bote, encontrava-me, lá, pensando nos possíveis gracejos. Na mesa a discussão corria solta regada a muita bebida, debatiam fervorosamente assuntos sem importância.
Pensei primeiro se um ser descomunal como aquele me daria o ar de sua graça num quarto de motel. Esse pensamento elevou meus sentidos... um motel. Qual seria? Nunca me considerei o padrão de beleza, mas tenho minhas conquistas como algo quase sagrado. Recordo-me de cada corpo que possui! Não posso me queixar da sorte, ou destino, ou dos hormônios e instintos sexuais alheios. Sempre me renderam bons frutos. Focalizo o próximo! Corpo escultural, 1 metro e setenta e tantos, seios volumosos, cintura fina e um quadril cavalar. Um pescoço ereto sustentando uma bela face de cabelos negros e lisos. Muito magra. A essência maior em sua figura eram os seios. Enchiam os olhos e o sutiã.
Miguel tirou-me do transe em que me encontrava: – Vais beber alguma coisa? – Hoje não. Respondi secamente reprovando sua inocente intervenção no meu devaneio. Como seria seu nome? Pouco importa. Será que geme? Que grita? Será que no tesão crava as unhas nas costelas alheias? Será que chupa? Tive desejo em saber. Cada novo pensamento me dava mais coragem de ir até lá e descobrir. Agarrá-la pelo braço, puxá-la até o banheiro dizer que é o fim do mundo e que tudo depende de uma última trepada, que o sexo é a chave para entrar no céu. Vai que ela goste de aventuras, chupar em vias públicas? E se fosse tão depravada quanto? Se me convidasse para uma orgia? Se tirasse minha roupa ali mesmo, sem esperar réplica.
- Te pago um uísque. Interpelou Miguel.
- Não, preciso de todos os meus sentidos inteiros hoje.
Odiaria perder qualquer sensação ao lado daquele corpo. Ela não me notara, nem olhara para os lados. Sabia que vários olhares se cruzam nela, que é objeto da atenção de muitos. Decidi me antecipar, ir logo e não pecar pela parcimônia.
- Olá.
- Oi
- Está sozinha?
- Sim, por quê? Tinha a voz aguda, um sotaque sulista forte. Cantava as frases peculiarmente. A pele branca e lisa. Pequenas olheiras a concediam maiores charmes e ar de notívaga. Falava calmamente. Já eu, escutava no ar as batidas vigorosas do meu peito, acelerado de excitação, a voz trovejava pela minha boca ganhando o ar furiosamente, tinha que me conter. Estava ali a brecha necessária (Sim, por quê?), creio que ela começou a entender.
- Não, por nada. Só achei estranho uma garota tão bonita, sozinha.
- Obrigada, mas estou bem assim.
Merda!
- Tudo bem se eu me sentar aqui?
- Sim, fique a vontade.
- Estive pensando se eu e você, talvez não poderíamos ir para um lugar mais reservado? Agora sim ela percebeu minhas intenções.
- Desculpe, não estou interessada. E por falar em lugar reservado, acho que já vou indo.
- Sim entendo. Ela levantou-se fatalmente. - Um nome, ao menos me diga seu nome?
- Alice, e o seu?
- Paula.
- Passar bem, Paula!
Chamei o garçom, e não me lembro como cheguei em casa naquela noite.
A FALÊNCIA DO CONTRATO SOCIAL
Com entender, meu caro, a relação entre o indivíduo e a sociedade? Vivemos uma sociedade de indivíduos ou numa individualidade coletiva? Várias questões emanam dessa correlação. Vamos por partes.
Freud explica em “Futuro de Uma Ilusão” e “O Mal-Estar na Civilização” que o sentimento social, assim como o sentimento “oceânico” essência da energia cristã que a relação eu-nós é uma das estruturas primordiais do Ego. Este em seu principio não diferente o mundo externo do interno e a cada provação que é posto, cada infelicidade começa a perceber que existem estímulos externos a ele e ao corpo biológico separando através da rede nervosa e de sistemas musculares o interno do externo. Mas a separação psicológica é fundamental, e, não é inteiramente substituível. Ou seja, diz Freud que as estruturas primárias do ego coexistem com as suas formas contemporâneas. Conclui-se que no inicio a percepção do eu encontra-se estritamente atrelada ao resto do mundo e gradativamente delimita, mais ou menos claramente, suas fronteiras. E essa percepção nunca é sumariamente extinta de nosso intelecto.
Essa interpretação psicológica freudiana nos sugere uma reminiscência de ligação entre o Eu-Nós que não se apaga, mas se submete a futuras “conclusões” cerebrais. Por isso nossa ligação tão presente e intrínseca com outros indivíduos de nossa sociedade
O Antropólogo Edgar Morin trabalha com uma relação indissociável de trindade psíco\biológico\social, afirma ele que o ser humano é regido por uma co-relação entre Indivíduo\Espécie\Sociedade. Cada um, contido e continente de seu próximo. Por exemplo, o indivíduo isola-se e diferencia-se dos demais como auto-proteção, mas serve aos desejos da espécie e é influenciado pelas inclinações sociais. Vemos uma relação clara, ate mesmo aceita por Morin da trindade Ego\Id\Superego.
O Historiador Norbert Elias interpela a questão de forma peculiar, sem extirpar as interpretações demais. Escreve ele, principalmente em seu livro “A sociedade dos Indivíduos”, que o individuo é enclausurado em um alçapão cerebral e de lá controla as inclinações, desejos e paixões individuais. Mas, diz Elias, que ele é “moldado socialmente”, que a nem a genética nem os instintos estabelecem seu comportamento final, diz, que o ser humano só atinge seu potencial máximo através do convívio – que acarreta no aprimoramento – com os demais seres humanos a sua volta.
Pensar a origem da sociedade a começar por indivíduos isolados que decidiram através de um contrato fundar uma entidade social é ignorar a necessidade de coexistência humana. O convívio social existe numa ausência gritante de objetivos assim como os próprios indivíduos. Vários experimentos nos mostram que só atingimos certas capacidades cognitivas em contato com demais seres humanos e que esse contato, por vezes, se mostra tão necessário quanto o alimento ingerido.