AS FACES DO NADA
Artigo de Paulo Jonas de Lima Piva (Mestre e Doutorando no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo e bolsista da Fapesp), simplesmente fascinante. As vezes me pego pensando exatamente isso, a um bom tempo estava pensando em escrever sobre. Colhendo informações achei esse magnífico texto.
A ética do Ateu
[...] retomemos o, de certa forma, enigmático aforismo de Emil Cioran “Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo”. Nele podemos perceber as duas faces do Nada no qual o homem está chafurdado: de um lado a ausência de Deus, do outro, o próprio Deus. Sendo Deus uma fábula, um mito, um artifício imaginativo e muitas vezes inconsciente do qual os homens lançam mão para garantir a si próprios uma estabilidade metafísica, moral e psicológica, conclui-se que Deus carece de realidade, de ser, carece de existência, ou seja, Deus é Nada. Por outro lado, quando o indivíduo adquire a consciência de que a religião na qual ele depositava toda a sua fé nada mais era do que uma mitologia, mais precisamente, uma mitologia sem consciência de si, em suma, uma tentativa lírica e poética de encantar o mundo, de preencher o Nada natural e espontâneo dos seres e dos acontecimentos, enfim, quando o indivíduo religioso desperta para o fato de que deus não existe, o Tudo ilusório de outrora vira Nada.
Diante desse quadro ao mesmo tempo desesperador e fascinante apresentado por Cioran, poderíamos fazer a seguinte indagação: como um ateu do século XXI, às voltas com o fantasma do desemprego, com a ameaça constante da violência, com a falência das utopias, com o desenvolvimento da genética e com a massificação cada vez mais sufocante se portaria na relação com os outros seres humanos?
A ética diderotiana seria certamente uma fonte rica de subsídios para a resolução desse drama existencial, pois ela nos ensina que, embora Deus não passe de uma crendice, nem tudo é permitido, e que, mesmo imersa no absurdo e no nada, a vida ainda conta com o prazer no seu sentido mais amplo. Numa palavra, ele nos persuade de que a vida, a despeito dos seus dissabores, vale a pena ser vivida, sobretudo quando nos livramos do “último chato” (CIORAN, 1991, p. 50)
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Postado por: Rodrigo L. Mingori às 14h32
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