Dramas Pós-Modernos
Casado há 15 anos. Amo minha esposa. E por amá-la profundamente sou franco em dizer que não tenho amantes fixas. Não é ético. Relacionamento é com Lucíola. As outras, só amantes, passageiras. Vibrantes sexos, entretanto efêmeros em importância. Melhor, vibrantes sexos, só. Pelo amor e respeito à Lucíola não ouso fazê-la chupar e chamá-la de cadela. Não é certo. Sem tapas e anais. Sem algemas e orgias.
Naquela noite estava ansioso. Algo no céu estava estranhamente alarmante. O pior é nunca ter percebido essas sutilezas, e agora algo me chamava lá de cima. Era bizarro. Como bom cético nessa besteira de intuição fui até o apartamento de Criz.
Criz recebeu-me seminua. Fez ar de espanto ao abrir a porta, desconfiei. Conheci Criz há três meses, no happy hour à esquina da empresa. Loira, esguia, muito branca. Não era bela, um pouco desajeitada até. Perfeita, não chamaria atenção e sem aliança aparentando trinta e poucos estaria disposta a noites de prazer. Assim foi. Seu ar de espanto desconfiei muito. Espanto seminua ao receber o amante que chega sem avisar, só podia dizer uma coisa: havia outro.
Gaguejou ao falar - Não te esperava, pensei que ficaria com Lucíola hoje. Sem palavra entrei, para consumar o fato logo e voltar pra casa. Nada incriminador na sala. A estranha sensação ainda perseguindo-me. Gaguejou novamente, - Fique a vontade querido, quer café? Café? Não sou homem de frivolidades, ela sabe. Café? Não vim para confraternizaçõezinhas, ela sabe. Havia outro, definitivamente. No quarto a cama bagunçada e cheiro de sexo. Provas.
Tinha tanta segurança que agradava minhas amantes, talvez mais que Lucíola, jamais pensara numa situação dessas. Sentei na cama desconcertado. Ela na cozinha. Café?! Patético. Ao sentar um calafrio e asco. Cama suja! Levantei-me mais desconcertado. Por que ela procuraria outro? Nisso ouvi risinhos no banheiro. Maldito, ainda estava lá. Eram duas pessoas. Fiquei levemente excitado. Contudo o rancor me amargou novamente.
Fui até a cozinha. Ela de costas. Abracei-a forte. No abraço toquei entre suas pernas. Seca. Totalmente seca. Não tinha culpa. Servira mesa para quatro e entrava na cozinha um casal aos beijos. Sua irmã e o namorado. Fiquei aliviado.
Fiz o serviço. Tapas, anais, algemas, cadela!
Lá pelas oito vesti as chuteiras e o calção do América, ia voltar pra casa, como sempre todo suado. Saindo de seu apartamento vi outro homem com uniforme do Palmeiras. Estava ela fechando a porta às minhas costas quando outro rapaz muito novo segurou a porta com o pé e beijou-a firme. Cena embaraçosa; e estranha.
Rancor, rancor profundo.
Lucíola perguntou-me em casa, vendo minha fossa, o que acontecera. Disse-lhe que perdemos feio para os solteiros, seis a zero. Tentou me animar, mas estava muito cansado para sexo depois do jogo.
Livreto em breve!!
O que é o sentir senão um iludir-se?
O que é a vida senão a espera da morte?
O que é a felicidade senão a falta temporária de preocupações?
O que é a verdade senão a ausência da falácia?
O que é o amor senão uma esperança solitária?
O GOZO DO SER
Freud já dizia: buscamos a satisfação da libido! A flexibilidade moral e a liberdade do século XXI nos permitem ver símbolos fálicos por toda a parte. A criatividade bolina nossos desejos. Um assédio desmedido, a saciação descomunal dos desejos imediatos. Imediatismo! Buscamos – já, agora! – o paraíso na terra, portanto observamos o homem antropologicamente petrolífero, o indivíduo eletricamente super poderoso!
O objetivo da civilização é proporcionar conforto aos traseiros e egos alheios. Não conseguimos mais abandonar as regalias que a ciência nos deu. Evoluímos: somos os Homo Ignóris Esforçús Sapiens. Note que o sapiens vem por último.
As regalias científicas acomodam nosso instinto primitivo de sobrevivência (somos vadios), seccionam-nos em cátedras minúsculas do conhecimento potencializando a distância e a dependência dos homens (somos sozinhos e despreparados). A informação pasteurizada – ingenuamente imparcial – ministrada com apelação sexual para saciação da ordem libidinosa funciona como um Viagra moral, trazem uma falsa – e muitas vezes duradoura – sensação de conforto e preparo (a propaganda de cerveja com mulher semi-nua no intervalo do jornal não é por acaso, é fruto do mundo pop que consome ideais prontos).
No fim das contas temos: a mídia masturba o ser que jorra para a existência e broxa para o capitalismo.
CLAMOR
A justiça sou eu!
Que injusta extirpa o fraco.
Nossa tolerância
Nossa tolerância eclética, complacente.
Seu tempo já passou!
Além do entendimento busco resposta
Além do bem busco a saída.
A baixa igualdade fraca clama justiça.
Massa uniforme,
Justas e sem arestas
Travestem a pura verdade
Negando-a,
Negando-a.
Alegres letárgicos instintos vis
Travestidos vis.
Nascido no tédio frio do cálculo
Venho vingar o injustiçado!
O forte incompreendido,
Do justo cego,
Do simples justo negligente.
Além do bem busco saída!
SOMBRA
Como sombras na areia,
Na penumbra do esquecimento buscamos eternidade
Refletidos no pó a dançar ao sabor do vento
A luz de nossos olhos.
Efêmeros nós
Sobre a tênue imagem gasosa de areia
Construímos castelos infindáveis
Enquanto a partícula voa
Enquanto a luz não sana
Enquanto a onda não chega
Existimos.
E depois?
Depois nada mais.
Por que olhas?
Olhas e não vês.
Então por que olhar?
Por que sentes?
Sentes e não vive.
Então por que sentir?
Por que pensas?
Pensas e não entende.
Então por que pensar?
Resumir a vida
É facilitar as coisas.
Aquele abraço ao Analfabetismo Funcional que atinge mais de 50% da população brasileira.
Até Quando?
Gabriel Pensador
Composição: Gabriel o Pensador; Itaal Shur; Tiago Mocotó
Não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve
Você pode e você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu
Num quer dizer que você tenha que sofrer
Até quando você vai ficar usando rédea
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea
Pobre, rico ou classe média?
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ser saco de pancada?
Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
Seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Você tenta ser contente, não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante
É tudo flagrante
É tudo flagrante
A polícia matou o estudante
Falou que era bandido, chamou de traficante
A justiça prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado e absolveu os PM's de Vigário
A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco:
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco
A programação existe pra manter você na frente
Na frente da TV, que é pra te entreter
Que pra você não ver que programado é você
Acordo num tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede diploma, num tenho diploma, num pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá
Consigo emprego, começo o emprego, me mato de tanto ralar
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar
Não peço arrego mas na hora que chego só fico no mesmo lugar
Brinquedo que o filho me pede num tenho dinheiro pra dar
Escola, esmola
Favela, cadeia
Sem terra, enterra
Sem renda, se renda. Não, não
Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro
Um mestre das palavras! Clip muito, mas muito bom! Além da letra a arte no vídeo ficou explendidamente inteligente!
PAGANINI VIVO!
Paganini! O formidável violinista. Arrancava suspiros e aplausos enfurecidos das mais ecléticas, exóticas e refinadas platéias. Quando Paganini entrava em ação tudo se concentrava nele. Era o centro do espetáculo, executando peças no seu violino de maneira voraz, Pagnini gostava de ficar escondido entre a orquestra e aparecer como que do nada roubando as atenções, encarava a platéia até essa ficar afoita e quando começava a tocar os espectadores ficavam embriagados com seu talento e carisma. Era comum Paganini acabar com apenas uma ou duas cordas em seu violino e a platéia delirando estupefata.
Os críticos musicais contemporâneos à Paganini observavam uma técnica formidável. Ele era uma figura inominável, Franz Liszt escreve no obituário de Paganini “o mundo admirado o olhava como se fosse um ser superior. O arrebatamento que provocava era tão inabitual, a mágica que realizava com fantasia dos ouvintes era tão poderosa, que eles não podiam se satisfazer com explicações naturais.”; era enquadrado em outra categoria de seres, os abençoados divinamente com dons inexplicáveis. Os ecos da figura de Paganini deixaram marcas irremediáveis na formação da cultura e da identidade individual do homem nos séculos seguintes!
Paganini transcendia o texto musical chamando para si a atenção na execução das peças. Críticos musicais contemporâneos diziam que apesar da técnica Paganini nada tinha de magistral a não ser sua própria presença. Ele transformou a execução de obras musicais em suas exibições prodigiosas! Foi o primeiro rei do Pop! De um modo aristocrático e refinado, foi a primeira imagem cultuada com um fim em si mesma, a não ser talvez por Wilkes na política Londrina algum tempos antes. Mas Paganini foi bombasticamente superior em importância.
A partir de Wilkes e Paganini a personalidade começa a se confundir com a vida pública. O homem é provado ou crível pelo que aparenta e não pelo que é. Uma interminável onda desprovida de conteúdo jorra na vida pública a partir desse conceito. É o mundo do entretenimento eterno e supérfluo. Da atuação pública com fim em si mesma. É o esfacelamento das interações sociais concretas e a passagem para a observação silenciosa da vida passageira. A primeva das sociedade intimistas. O inicio do eufórico mundo Pop.
Depois, até às horas de dormir, que nunca passavam das nove, ele tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher, dedilhar os fados da sua terra. Era nesses momentos que dava plena expansão às saudades da pátria, com aquelas cantigas melancólicas em que a sua alma de desterrado voava das zonas abrasadas da América para as aldeias tristes da sua infância.
E o canto daquela guitarra estrangeira era um lamento choroso e dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto mar, quando a tempestade agita as negras asas homicidas, e as gaivotas doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos pressagos, tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abóbada de chumbo
Techo extraido de “O Cortiço”de Aluísio de Azevedo.
Nunca acabe sua arte
Pois assim que acabares,
Ela não te pertencerá mais.
Ou imole seu egoísmo
Atacando a pureza de suas idéias
E deixe de invocar o direito sobre o que eras teu.
A poesia é humana
Sacrifique-se por ela.
Coloque vossa mente em seu beneficio.
Entregue vosso corpo a ela.
Só assim serás eterno nos outros.
Donos teus.
Do que sentias em vida.
Que não vos pertence mais.
Donos da tua eternidade;
Do teu nome;
Da tua memória.
Cultive a arte em você
E não deixe mais que rastros,
Migalhas,
De seu pensamento.
Caso contrário.
Seu nome será como uma rameira,
Usado.
Terás na eternidade
Tua idéia travestida em mentes quaisquer
Que o usarão.
Justificarão seus atos em ti.
E tu?
Não poderás replicar
Ficarás inerte,
Impotente.
Contra os usurpadores de tua subjetividade.
Boçais vivem e morrem ignotos.
E assim permanecem.
Puros.
O catedrático, meretriz de seus pensamentos
Será esculachado,
Usado.
Vários termos me vêm à cabeça quando se fala em dia dos namorados, contas, sonho de valsa, solidão, amor, congresso da União Catarinense de Estudantes.
Apesar de manjada, a idéia de que dia dos namorados é um dia comercial, não me sai da cabeça. Que o diga Papai Noel, esquecido, atirado sozinho no pólo norte com um bando de anões e renas o ano inteiro, sem luz nem internet! A sociedade é asséptica sonhando em ser afetiva. É escabrosa a forma como ela usa sentimentos e situações para promover a venda de imagens, idéias, signos e símbolos. Sinto calafrios assistindo TV no dia das mães. Pena no dia do “descobrimento” do Brasil, e, não consegui verbalizar meu sentimento no dia do Índio.
Não me entra bem na cabeça por que se institui um dia para essas coisas. E esse papo também é manjado, mas não consigo fugir dele, porque infelizmente é pertinente. São atitudes tão óbvias de seres humanos que não precisariam de um dia para serem exaltadas! Não acham? Acaba por acontecer que no dia dos namorados todos somos enamorados e a paixão pulula no ar, nesse dia belo todos são amorosos, se presenteiam, se cortejam, porque “oras é dia dos namorados!”. E os outros 364 não? No dia da mulher, a mulher pode tudo, e nos outros? No dia da consciência negra todos se lembram em luto da escravidão, sentem-se envergonhados por essa selvageria ou orgulhosos de sua etnia ser forte, valente, e só nesse dia? O pior preconceito é no dia do Índio. E festa junina não escapa, infelizmente.
Bom, mas voltemos aos namorados.
“Roga a Deus que teus anos encurtou, / Que tão cedo de cá me leve a ver-te, / Quão cedo de meus olhos te levou.” Será que Camões precisaria de um dia dos namorados pra escrever tal formosura à sua amada? E Dom Quixote, quantos moinhos de vento destruiria no dia 12 de junho em nome da doce Dulcinéia? “Durando mais que o brilho exterior da beleza, com uma alma que se renova mais depressa que o sangue se destrói.” Shakespeare escreveu isso no dia dos namorados, certeza!
A sociedade é hipócrita e mesquinha. Não se importa com o ser humano. Trata-o como uma criança que não tem as faculdades mentais desenvolvidas para saber o que é melhor para si. Por isso institui esses dias para lembrá-los de suas namoradas, mães, índios, negros e etecéteras menosprezadas.
O homem não precisa usar uma faixa que diga “Sou contra o racismo” isso deve ser implícitos nos seus atos. É uma grosseria com as mulheres ser gentil no dia dos namorados, e só. Para terminar, tem uma música dos Garotos Podres que soca a realidade em nossas fuças. “Papai Noel velho batuta / Rejeita os miseráveis / Eu quero matá-lo! / Aquele porco capitalista / Presenteia os ricos / e cospe nos pobres.”
Bate-se o martelo, ganho de causa ao moralismo!
Viva o congresso da UCE no dia dos namorados!
E não me venha usar esses argumentos como pretexto de seu esquecimento sexta-feira, acredite, não vai colar!
ASSIMETRIA
Conceitos estéticos supérfluos
Pequenas mentes e suas estreitas visões
Exuberantes bolas de sangue, vísceras e carnes
Como já dito
A beleza é passageira e a feiúra é para sempre
Assim como são eternas as poesias
Os conceitos
Os pensamentos
O presente!
Muito mais que um aglomerado de símbolos!
Maior em feiúra e em poesia
O monstro estético sucinta o transcendente.
Sucinta e transcende
A simetria das carnes e dos cortes.
O aparelho de coerção do estado (polícia) é um remendo da moldagem social. Enquanto a violência sistêmica não for combatida, as áreas de conflito dos interesses público/privado continuarão!
CRUZADAS
Nem sempre palavras bastam
Mas agora hão de me servir
Para dizer o mais completamente possível
Tudo que merece ser dito
Do nada que nos cerca
E da cerca que nos encerra no nada
Cerrando nossas palavras
Dizendo impossibilidades completas
Servirão agora, mas nem sempre bastam
Minhas palavras de nada
Meus dizeres de tudo
OS VAGOS VALORES VAZIOS
Uma interessante discussão certa feita me chamou a atenção. Alguns amigos debatiam sobre vaidade e coisas do gênero. Ouvi uma frase que me deixou bastante chocado, alguém proferira. – Eu sou metrossexual!
Aquilo soou tão estranho e me deixou no mínimo intrigado. Existe uma liquidez nos conceitos, vocês não acham? A única definição clara da diferença dos sexos são as plaquinhas dos banheiros, as quais podem sofrer contestações a qualquer instante. – Mulheres também usam cartola; e homens, saias.
O mundo era tão mais simples! Mas vale acrescentar outra máxima. Coisa do passado.
Todavia meu questionamento é outro. O que define um metrossexual? Um homem, ou mulher, extremamente vaidoso, correto. Mas o quanto seria extremamente vaidoso? Qual é o parâmetro de vaidade? Pode existir uma regra? Se a pessoa depila 32% do corpo e usa mais de seis espécies de cremes é metrossexual.
Isso, entre outras tantas coisas, me parece mais como uma frenética busca por identidade num mundo cheio de nadas. Uma idealização do superego. Situações naturais. Entretanto, essa necessidade constante de diferenciar-se na multidão me parece algo preocupante. O indivíduo se perde em ativismos, em valores vazios. Enfim, como disse antes, coisas naturais!
E viva o Corinthians!